De volta aos jardins da infância!

Democracia é a forma de governo em que o povo imagina estar no poder”

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

De fato, nosso poeta-maior nutria moderado entusiasmo pela política, talvez nem um pouco menos pelos políticos; mas, isso não o impediu de fazer amigos e manter relações fraternais com alguns notórios homens públicos dedicados à chamada arte do possível.

[“… foi íntimo colaborador do político mineiro Gustavo Capanema, foi seu oficial-de-gabinete na Secretaria do Interior de Minas Gerais (1930-1932), secretário particular enquanto Capanema exerceu a interventoria do estado em 1933, e chefe de gabinete de 1934 a 1945, durante sua gestão no Ministério da Educação e SaúdeNo período de 1945 a 1962, foi chefe de seção no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional , in FGV CPDOC Biografias.]

Seu entendimento sobre os partidos políticos (“Agrupamento para defesa abstrata de princípios e elevação positiva de alguns cidadãos”, disse ele, por mais de uma vez!) nos dá a exata dimensão do que pensava sobre o caráter desses que se jactam e se lambuzam de fazer tudo em nome do coletivo, do cidadão insuspeito, sem paixão ou rosto identificável (“È fácil falar em nome do povo, ele não tem voz”, concluía em candente desesperança).

E ele nos lembra de que “uma eleição é feita para corrigir o erro da eleição anterior, mesmo que o agrave”. Sábias palavras: a gênese da democracia, cremos!

Por outro lado, difícil compreender o comportamento do eleitor, que parece avaliar o pleito segundo a ótica do sebastianismo que permeou e ainda teima em permear o cenário da política brasileira.

Relembrando, e levando em conta os números consolidados pela Justiça Eleitoral para o 2º turno da Eleição Ordinária Federal, estavam cadastrados 147,3 milhões de eleitores aptos a votar em 2018.

E mais! Ao se considerar os votos brancos (2%) e os nulos (7%), pode-se constatar que os votos válidos para a apuração final representaram pouco mais de 71% do eleitorado! Isto é, naquela oportunidade, mais de 40 milhões de brasileiros decidiram ou ser indiferentes ou tergiversar diante do direito ao voto, alheios à importância das eleições para a presidência do país! É um número de pessoas que se aproxima da população da Espanha, por exemplo!

Ainda assim, a renovação ocorrida nas urnas confirmou a mudança no perfil daqueles eleitores que exerceram o seu direito ao voto, e algumas das velhas raposas acostumadas a ganhar sucessivas eleições, amargaram o resultado adverso e não foram lembrados em seus redutos e nem mesmo obtiveram êxito em indicar candidatos ou possíveis sucessores para compor o Senado e a Câmara Federal.

É importante chamar a atenção sobre a expressiva abstenção de 21% dos eleitores nas urnas, tanto no primeiro quanto no segundo turno das eleições, o que revelou a insatisfação e a indiferença com que o brasileiro encara a instituição do voto e a pálida expressão que inspira o exercício da cidadania na vida nacional.

Ou seja, estamos fadados ao parvo entendimento que tudo que acontece de ruim no país somente cabe inculpar aos governantes e que não temos nada a ver com suas ações ou iniciativas.

Uma questão de fundo, pautada para ambas as Casas do Congresso pelos formadores de opinião e repercutida à exaustão pela mídia, dizia respeito ao voto aberto para a eleição dos membros de suas mesas diretoras.

Embora o presidente do STF tenha negado por duas vezes as iniciativas neste sentido para as duas Casas do Congresso, ela voltou a ser suscitada no Senado e vozes orquestradas entoavam o cânone da sua adoção ainda que denegada liminarmente, por intermédio da exibição das cédulas ao plenário e à mídia, como forma de constranger os que se dispunham a reconduzir à presidência do Senado o mesmo senador que apoiara o candidato vencido nas urnas para a Presidência da República e que pretendia encampar seu quinto mandato na condução da mesa diretora e na linha de sucessão no caso de se tornar vaga a mais alta dos cargos da República.

Na Câmara Alta, uma expressiva renovação ocorreu nas urnas em outubro passado: a Casa colocou 54 vagas (2/3) das 81 vagas em escrutínio e nada menos de 85% delas, ou seja, 46 (!) vagas foram renovadas.

Digno de nota que 8 senadores que ocupavam vagas nas legislaturas anteriores sequer conseguiram sua reeleição!

A apuração ocorreu em duas (!) sessões exaustivas, tensas, dramáticas, com direito a apelos insidiosos que de forma meticulosa e premeditada se materializaram na intervenção, de resto previsível, da Corte Suprema, posto que os paladinos de sempre diligenciaram para garantir a realização da segunda tentativa de apuração, até porque não faltou a suspeita de fraude, posto que a primeira votação foi anulada em virtude da constatação que a urna que recebeu os votos dos 81 senadores, a despeito dos cuidados de uma junta apuradora, “gerou” uma cédula a mais, 82 (!) cédulas, quando da apuração diante do plenário do Senado!

No decorrer de um rumoroso (mas, bem ensaiado) auto, o candidato-programado-para-perder foi vencido pelo cansaço e pela pressão da mídia e dos cristãos novos que se ofereceram à imolação em nome de uma “nova ordem” e também daqueles que até então – por quatro mandatos sucessivos – lhe garantiram a presidência da Casa, quedando no gesto que se impunha inescapável da renúncia à postulação da presidência, vencido pelo cansaço e pela perfídia dos que até então lhes eram (e pareciam ser) caros!

Fez questão de mencionar em seu discurso, entretanto, antes da eloquente despedida do prélio que tencionava disputar, a referência ao apoio que havia articulado, divulgando a promessa que em sua eventual gestão privilegiaria o concurso de um membro de notório saber, indicado pela Alta Corte, escolhido entre os ex-integrantes dela e que teria assento junto à Mesa do Senado, para balizar as pautas futuras e evitar conflito de interesses e competências, evidenciando que houvera, sim, fraterna e orquestrada atuação das duas instâncias no episódio.

E, tal como um César, apunhalado antes que se esvaísse por completo a derradeira e viva chama do acalentado triunfo que lhe escapava, chegou a ameaçar a todos os remanescentes do panteão que sempre lhe garantira vitórias e influência, e iniciou seu perturbado discurso, balbuciando frases que parecia escolher ao acaso, recorrendo ao roteiro que empunhava na tribuna, ao mesmo tempo em que sondava os semblantes dos presentes e procurava calibrar o escasso interesse que despertava em seus pares durante sua arguição.

Na vertente oposta, tudo transcorreu de forma regimental na Câmara dos Deputados, não se registrando nenhuma digressão nos ritos que garantiram às articulações prévias o êxito que delas se esperava, inobstante as idiossincrasias dos que debutavam e que se somaram àquelas que já se conheciam dos que tiveram confirmados os seus mandatos.

Na Câmara Baixa, as 513 vagas em disputa igualmente foram sacudidas por idêntica transformação, e muitos nomes não logram êxito em reeleger-se e o perfil antes dominante, concentrado em verdadeiras dinastias estratificadas há décadas, cedeu lugar a novos protagonistas, muitos representantes de um único partido, posto que nada mais, nada menos, do que 35 (!) agremiações estavam disputando cadeiras no parlamento brasileiro.

De qualquer forma, há que enfatizar, foi o mesmo eleitor que votou no primeiro turno naquele outubro e que, em um mesmo momento, elegeu seus representantes para os dois plenários que formam e integram o Congresso Nacional, cujo presidente, que cumulativamente preside o Senado, é o terceiro na linha da sucessão presidencial!

Nota: Na linha de sucessão, o Presidente da República será substituído pelo seu vice, seja por motivo de morte, incapacidade latu sensu, suspensão, renúncia, impedimento (impeachment) ou viagem. E eventualmente, caberá ao presidente do Senado, ao Presidente da Câmara dos Deputados e o Presidente do Supremo Tribunal Federal, assumir a presidência do País, sendo que esses três últimos somente o fazem em caráter de substituição temporária, não cabendo a eles a sucessão em definitivo.

Eleição Ordinária Federal – 1º Turno

ItensTotalizadas (Un)(%)
Seções454.490100,00
Eleitorado

– Não Apurado

– Apurado

– Abstenção

– Comparecimento

147.306.295

470

147.305.825

29.941.171

117.364.654

 

0,01

99,99

20,33

79,67

Fonte: TSE – Divulgação de Resultados

Eleição Ordinária Federal – 2º Turno

ItensTotalizadas (Un)(%)
Seções454.490100,00
Eleitorado

– Não Apurado

– Apurado

– Abstenção

– Comparecimento

147.306.294

1.139

147.305.155

31.371.704

115.933.451

 

100,00

0,01

99,99

21,30

78,70

 

 

Total de Votos

–  Brancos

– Nulos

– Anulados

– Pendentes

– Votos Válidos

 

 

115.933.451

2.486.593

8.608.105

0

0

104.838.753

 

 

100,00

2,14

7,43

0,00

0,00

90,43

 Fonte: TSE – Divulgação de Resultados

Presidente da República – 2º Turno, Final

 

Votos Válidos

 

– PSL/PRTB

– PT/PCdoB/PROS

 

 

104.838.753

 

57.757.347

47.040.906

 

100,00

 

55,13

44,87

                                                Fonte: TSE – Divulgação de Resultados

http://divulga.tse.jus.br/oficial/index.html

O deputado Rodrigo Maia (DEM/RJ) foi eleito será o presidente da Câmara dos Deputados no biênio 2019/2020. É a terceira vez que ele ocupa o posto, algo inédito na democracia brasileira.

Ele foi escolhido no primeiro turno com 334 votos entre 513 deputados votantes.

Fábio Ramalho teve 66 votos a presidente; Freixo, 50; JHC, 30; Van Hattem, 23; Ricardo Barros, 4; Peternelli, 2; três deputados votaram em branco.

Emocionado, ele agradeceu seus adversários. “A Câmara, que é a casa do povo, ela precisa de modernização, de modernização, e de modernização na nossa relação com a sociedade, com os nossos instrumentos de tratamento, principalmente as novas ferramentas de comunicação”, afirmou.

E, como diria o poeta: “E agora, José”?

Parece-nos que no meio do caminho havia uma pedra! … Havia uma pedra no meio do caminho!